Esta é uma pesquisa que desenvolvi no meu estágio curricular do curso de Psicologia, em 2004, junto com meu orientador Cristiano Coelho. Publicamos um artigo em 2009 fazendo o relato do estudo. Você pode ler o artigo na íntegra fazendo o download do Scielo:
Contando e detectando mentiras: efeito do feedback sobre o desempenho
Psicologia: Teoria e Pesquisa
Jan-Mar 2009, Vol. 25 n. 1, pp. 137-145
http://www.scielo.br/pdf/ptp/v25n1/a16v25n1.pdf
Vou aproveitar o blog para falar um pouco mais informalmente sobre a pesquisa.
Muita gente me pergunta por que eu decidi pesquisar mentiras, como se eu tivesse algum tipo de afinidade com o assunto, mas a verdade é que meu interesse inicial não tinha nada a ver com isso. Tudo começou quando, em uma disciplina do curso de Psicologia, a gente ouviu sobre um estudo que usava uma técnica para ensinar pessoas com diabetes a discriminar o índice glicêmico do próprio corpo através da percepção de sensações corporais, sem uso de aparelhos. Aliás, aparelhos foram usados no treino, mas a habilidade discriminativa final não necessitava de aparelhos. Tendo passado pelo treino, essas pessoas conseguiam, simplesmente observando o próprio corpo, dizer se sua glicemia estava alta ou baixa.
A técnica de ensino é muito simples, e muito comum em psicologia, e chama-se treino discriminativo. A pessoa deve tentar perceber a presença de um estímulo, e de alguma forma apontar sua percepção (como dizendo "sinto que minha glicemia está baixa", ou apertando um botão). Se ela acertar é recompensada, se não acertar, não é. A técnica é simples, e o restulado esperado é que com o tempo a pessoa só aponte a presença do estímulo quando ele de fato estiver presente... ela aprende a discriminar o estímulo. A novidade desse estudo da glicemia, para mim, é que a técnica foi usada para treinar a percepção de algo que parece imperceptível, ou sutil demais para ser detectado sem o uso de algum tipo de instrumento ou aparelho.
Disso eu pensei "a detecção de que outras coisas aparentemente imperceptíveis pode ser treinada usando esse mesmo princípio?". A minha primeira idéia foi "detecção de mentiras", e foi pensando nisso que desenvolvi esse estudo.
A técnica que eu quis testar era: expor uma pessoa a uma seqüência de falas que podiam ser verdade ou mentira, pedir que ela fizesse julgamentos (tentar detectar as verdades e mentiras), e dar um feedback dizendo se a pessoa acertou ou não. Eu acreditava que com isso, com o tempo, a pessoa ia aprendendo a detectar mentiras. Não sei exatamente o que acontece durante essa aprendizagem... talvez o detector observa o comportamento do suposto mentiroso, percebe alguns sinais, julga se eles são ou não indicativos de mentira, e o feedback funciona como uma correção. Faz sentido, certo?
A premissa do estudo é simples assim, mas o demônio está sempre nos detalhes. A maior dificuldade foi bolar um procedimento capaz de envolver todos esses elementos: um número grande de falas que podiam ser verdade ou mentira, sendo que as mentiras pudessem ser objetivamente atestadas pelo pesquisador (ou seja, não podia ser uma mentira sobre a vida ou os gostos pessoais de quem a conta), estruturar algum tipo de feedback que também funcionasse como fator motivacional, etc. Fiquei razoavelmente satisfeito com o que a gente construiu.
Quanto aos resultados... bom, tanto o meu estudo quanto outros estudos da área dão evidências de que treinos com feedback podem melhorar a detecção de mentiras, sim. A grande complicação está no fato de que os sinais de mentira são muito sutis, idiossincráticos, e circunstanciais. Ou seja, não existe uma luzinha que acende sempre que a pessoa mente, nem um nariz que cresce, e por não haver um sinal único e claro, é muito complicado treinar alguém a detectar mentiras, ou sinais de mentira. É uma área de investigação científica muito complexa, e estou tentando dar minha contribuiçãozinha com pesquisas.
Meu mestrado também foi sobre detecção de mentiras, mas foi um estudo completamente diferente. Em outro momento vou falar sobre ele.
achei muito interessante seu blog , e esse texto sobre mentiras me chamou muito a atenção, bem q vc poderia colocar mais detalhes aqui sobre sua pesquisa, tive dificuldade em entender de fato o que vc concluiu...abraço
ResponderExcluirOs detalhes sobre a pesquisa mesmo estão no artigo! Tem o link para baixar.
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